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Daniel Barros: da Osklen à Kenzo

Daniel Barros: da Osklen à Kenzo

Daniel Barros é formado em design gráfico na PUC e o seu sonho, até alguns anos atrás, era se tornar ilustrador. O destino, porém, tinha outros planos pra ele. Acabou entrando por acidente no mercado da moda e nunca mais saiu. Ele é hoje o gerente de desenvolvimento de estampas da Kenzo. Isso quer dizer que ele é o responsável pelo design e o desenvolvimento dos acessórios têxteis (que na prática são em sua maioria echarpes e foulards) da marca. (#apenas).

Se você ficou curioso para saber mais da sua trajetória inspiradora com apenas esse primeiro parágrafo, dá uma olhada na entrevista abaixo, em que ele fala das suas inspirações, projetos e até dá dicas para quem quer trabalhar com moda:

Um suspiro: Você ocupa hoje uma posição almejada por muitas pessoas. Como chegou onde está hoje?

Daniel: Eu posso dizer que estar nessa posição é fruto de muitos anos de trabalho, nos quais me esforcei pra aprender muito de todo mundo. Sou apaixonado pelo que faço e nunca fiquei estacionado numa zona de conforto. Mas a oportunidade aparece por sorte. E eu acredito que, mais cedo ou mais tarde, ela aparece pra todo mundo. O que faz a diferença é você estar preparado pra ela.                    

Um suspiro: Como entrou em contato com a moda? Conte um pouco da sua trajetória.

Daniel: Confesso que eu entrei em contato com a moda por acidente. Estudei design gráfico na PUC e queria ser ilustrador. A Osklen se interessou pelo meu trabalho e, antes de me formar, já comecei a trabalhar lá, em estamparia. Na época, eu só queria poder pintar e desenhar como profissão, mas fui me apaixonando pela moda e quando fiz minha primeira capa da Vogue entendi que eu não a largaria nunca mais.

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Primeira capa do Daniel Barros, na revista Vogue

Um suspiro: Como é trabalhar na Kenzo? O que você faz na prática?

Daniel: Meu trabalho é basicamente design têxtil, muito focado na inovação, na criação de novas técnicas de estamparia, etc. Minha primeira coleção deve entrar nas lojas em breve e já mostra como o trabalho que fizemos é revolucionário.

Quando me chamaram para trabalhar na Kenzo, decidimos transformar uma categoria que as marcas não dão muita bola em algo que pode ser incrível. E pra mim, que trabalhei tantos anos com impressão e tinha muito conhecimento técnico na área, foi uma oportunidade de criar meu próprio laboratório de tecidos. Poucas pessoas na área tem liberdade pra experimentar tanto, com tecidos que vão da seda a tecidos sintéticos.

Eu gosto de estar envolvido em todas as etapas, acompanhando o processo fim a fim: desde o lado conceitual da coleção, em que revisito ícones da Kenzo de maneiras divertidas e criativas; passando pela parte técnica, produção e até discussão de displays na loja.

A Kenzo é um ambiente muito fluido e aberto. Tem uma estrutura menos rígida e não muito vertical, o que privilegia a criatividade e a motivação dos designers.

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Foto: divulgação

 Um suspiro: E o que te inspira?

Daniel: Eu sou muito voraz com imagens, não me desligo nunca. Se vejo alguma coisa no celular no fim de semana eu dou um print screen pra lembrar da ideia depois.

Também estou sempre em contato com a arte. Vou a museus, exposições, etc. Acho que essa é uma das coisas que me mantém dentro do mundo da moda, uma profissão que não tem limites para a busca de referências. Quando vejo alguma coisa penso que poderia ter tido aquela ideia, então eu me proponho a estudar a técnica, como ela foi feita e na minha cabeça já se criam conexões com outras coisas.

Um suspiro: Tem algum plano ou projeto na sua área que gostaria de realizar no futuro?

Daniel: Sim. Muitos. Todos possíveis (risos). Eu gosto de fazer um pouco de tudo. Eu gosto de estar na posição de não saber alguma coisa, isso me dá um mundo a explorar e eu vou absorvendo tudo e adicionando um toque meu. Pra vocês terem ideia, eu até já até cortei cabelo pra Dior. Aqui na Kenzo eles brincam que sou um gato de sete vidas porque faço de tudo.

Tenho um galerista que vende meus trabalhos em Londres e neste momento estou preparando uma exposição para exibir em Paris.

Um suspiro: Quais conselhos você daria para alguém que esteja entrando no mercado de trabalho da moda?

Daniel: Eu tenho muita dificuldade em lidar com pessoas que acham que sabem de tudo. Algumas vezes, vejo que porque trabalhou nessa ou naquela marca o profissional acha que existe um jeito certo e um errado de fazer as coisas. Quando fazia só a 02Gatos (meu estúdio, que ainda existe), trabalhei com mais de 50 marcas. Cada uma achava que o seu jeito era o único e certo. Eu ia coletando as partes boas de todas pra mim e acho que isso foi uma boa lição.

Mas se eu pudesse dar um conselho, preferia repetir um texto que me inspirou muito, do Theodore Roosevelt, especialmente quando eu tinha medo de me arriscar, de ser ridículo, se não ser aceito, de não saber. Volta e meia, quando eu fraquejo e começo a me questionar, eu volto nele. Resumindo um pouco o texto, ele diz que você é o que faz, não o que sai no seu currículo.

Você pode ter tudo e não se abrir ao risco do processo criativo – ou pode não ter nada disso e ter a coragem de se jogar nele. Todos os melhores cursos do mundo que conheci tentam te ensinar isso, mas você pode aprender sozinho. O valor é de quem tenta, seja fracassando ou não. Quem quer acertar e ganhar sempre vive sem desenvolver o próprio potencial.