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Quebrando mitos sobre o cool hunting

Quebrando mitos sobre o cool hunting

A primeira coisa que a maioria das pessoas pensa quando se fala em cool hunting é que ele nada mais é do que um nome hype para pesquisa de mercado, além de ter a ver com moda. Ledo engano. E isso ficou bem claro no workshop que eu participei há um tempo, promovido pelo Instituto Rio Moda  e facilitado pela Sabina Deweik.

Para quem não sabe, Sabina foi a precursora desta profissão (ainda misteriosa para muitos) no Brasil. Há mais de 15 anos, quando ninguém nem sequer imaginava a existência do cool hunting, ela se tornou representante do instituto de pesquisas de tendências de consumo Future Concept Lab no país. Hoje, o termo já se difundiu, mas faltam informações sobre o que ele realmente é na sua essência.

Sabina Deweik
Sabina Deweik

Para resolver essa questão, quebrar alguns (muitos) mitos e evitar enganos comuns, entrevistei a Sabina com o intuito de passar para vocês o que aprendi em um dos melhores workshops dos quais já participei.

Eu: Sabina, vamos começar pela pergunta clássica. O que é cool hunting?

Para ser sincera, eu nem gosto muito do termo cool hunting porque acho que ele hoje está um pouco banalizado. As pessoas não entendem direito o que é, acham que é falar de moda. Ele até surgiu na moda porque está muito ligado a comportamento e tem um lado estético, mas é muito mais do que isso. É uma observação dos sinais emergentes da sociedade, um trabalho sociológico, antropológico, e não apenas tirar foto de vitrines ou de streetstyle. É uma pesquisa profunda que fornece às empresas a capacidade de inovar e não copiar o que está lá fora. O cool hunting dá a possibilidade de as marcas terem um maior embasamento para lançar um novo produto, uma campanha de comunicação, estruturar um ponto de venda, criar um novo posicionamento, enfim. Ele está a serviço de várias áreas e a única forma de anteciparmos o futuro é observando o presente.

 Eu: Como assim?

Ser uma caçadora de tendências é ter a capacidade de radiografar e interpretar a essência do zeitgeist – palavra em alemão que significa espírito do tempo – e observar o que está acontecendo em termos de comportamento, seja na moda, cultura, gastronomia, arte, literatura, cinema, enfim, é olhando para essas manifestações que a gente consegue captar quais são os valores emergentes da sociedade, o que as pessoas estão querendo, o que elas estão pedindo. Muitas vezes o consumidor não expressa verbalmente o que quer. É preciso interpretar os sinais e o cool hunting dá conta de observar e captar aquilo que não necessariamente foi exposto com palavras, mas que está no imaginário coletivo.

 Eu: E de que forma você entrou em contato com esta profissão? Foi amor à primeira vista?

Me formei em jornalismo na PUC-Rio e comecei a minha carreira no Estadão, cobrindo cultura. Depois, mais pra frente, começou um movimento de profissionalização da moda no Brasil e eu acabei me especializando nesta área. A moda sempre me interessou por ser uma expressão de comportamento. Então, fui fazer um mestrado de Comunicação de Moda na Domus Academy, em Milão. Lá eu tive o meu primeiro contato com o com o cool hunting por meio do Future Concept Lab e neste momento, minha visão ampliou. Voltei para o Brasil em 2000 para fazer um trabalho experimental para o instituto, em São Paulo, e nunca mais parei.

Na época, não existia ninguém que fizesse este trabalho no país. As minhas amigas me achavam um ET. Me perguntavam: “Mas o que você faz? Fica tirando fotos das pessoas nas ruas?” Foi realmente uma paixão que exigiu muita persistência da minha parte porque as pessoas não valorizavam esta profissão. Mas eu acreditava que era uma metodologia válida, importante e que em algum momento as empresas iam começar a dar valor para isso. Hoje estamos nos aproximando deste patamar.

Eu: O que para você são características fundamentais para ser um bom cool hunter?

Prática. E isso se adquire com o tempo, saindo às ruas, conversando com as pessoas, entrando nos locais. Não é simplesmente passear, mas observar com olhos atentos. Além disso, todas as disciplinas que permeiam o comportamento humano, como antropologia do consumo, sociologia, antropologia e psicologia, por exemplo, também servem como agregadores de repertório.

Sobre o Instituto Rio Moda

Para quem se interessar, o Instituto Rio Moda promove diversos cursos sobre o tema e já contou com nomes de peso, incluindo não só o da Sabina, como também da analista cultural e pesquisadora de tendências Carol Althaller. Fique de olho na programação do Instituto para não marcar bobeira. Se você curte moda, vai encontrar várias opções pra expandir o seu conhecimento sobre o assunto. (#ficadica)

Texto originalmente publicado na NOO.